 Photo: L. Bonanno/PlusNews
|
| Isolados mas não abandonados: medicamentos, alimentos e cuidados chegam até Chigondole, na Zambézia |
Chingondole - São dez horas da manhã e o termómetro do carro aponta 35 graus em Morrumbala, província da Zambézia. Na comunidade de Chingondole, a 500 metros da fronteira com o Malawi, as crianças correm no chão rachado pelo sol.
A maioria dos adultos está na machamba a plantar milho, que será a garantia de comida durante seis meses. No outro semestre, poderá haver insegurança alimentar. Apoiada no irmão, Maria Zeca Candrino, 29 anos, caminha com dificuldades até sentar-se na esteira para ser vista pela equipa da organização não governamental Save The Children-Reino Unido (SCF-UK).
“Terás que ir ao médico. Se não, vais morrer,” diz a Candrino a enfermeira Luísa Camurina. Há quatro anos, Candrino perdeu o marido e há três meses a filha de quatro anos, ambos da Sida. Desde que descobriu ser seropositiva há oito meses, ela não passou por consulta médica. “O hospital é muito longe,” diz ao PlusNews.
Os hospitais mais próximos de Chingondole estão a 35 quilómetros, na comunidade de Shire, no Malawi, ou a 45 quilómetros, em Morrumbala-Sede. Para ir ao Hospital Distrital de Morrumbala, um morador de Chingondole tem que apanhar uma carrinha, vulgo chapa, e pagar 50 meticais (dois dólares americanos); ter hospedagem, porque é difícil conseguir transporte de ida e volta no mesmo dia.
| Henrique Candeeiro, o melhor cuidador do mundo |
| Henrique Augusto Candeeiro, 37 anos, foi eleito pela Save The Children-Reino Unido (SCF-UK) como o melhor cuidador de 2006 ao nível global. Além dos seus nove filhos, Candeeiro toma conta de seis sobrinhos. Para ele, ser cuidador significa trabalhar para proteger os seus familiares e vizinhos da Sida. “Quero que outros defendam os meus filhos do HIV, depois de eu morrer”, diz Candeeiro, exibindo o troféu com o seu nome gravado. |
“E improvável que essas pessoas façam o tratamento da Sida, em que é preciso frequentemente passar por consultas e apanhar antiretrovirais”, diz Camurina.
Segundo ela, 80 por cento dos 22 mil habitantes de Chingondole atravessam a pé ou de bicicleta a fronteira com o Malawi para ir ao hospital, onde as condições de atendimento são melhores que as de Morrumbala-Sede.
Candrino teve sorte. Desta vez, vai no carro da SCF-UK ao hospital, em Morrumbala. “O problema é como regressar. Não tenho dinheiro para apanhar o chapa,” diz.
Resposta comunitária
Ela é uma dos 321 doentes atendidos pelo projecto de cuidados domiciliários do SCF-UK, em curso desde 2003. Candrino pode ser a primeira a ter antiretrovirais em Chingondole e se juntar aos 111 que moram no distrito de Morrumbala e fazem a terapia antiretroviral (ARV).
Mas, segundo a gestora provincial do SCF-UK, Daphne de Souza Lima Sorensen, a ideia é “ter alguém na comunidade e da comunidade,” que possa atender casos como o de Candrino.
“Uma linda ambulância com o logo do SCF-UK poderia transportar os doentes, mas eles se tornariam dependentes,” diz Sorensen. Por isso, 77 activistas de 16 vilas e bairros de Morrumbala foram treinados. Durante 12 dias, tiveram lições de primeiros socorros; higiene; transmissão do HIV; tratamento de doenças básicas; como ensinar aos familiares a cuidar de um doente; e incentivar o tratamento ARV.
Os cuidadores foram escolhidos pelas suas comunidades e, tal como os doentes, recebem, mensalmente, uma cesta básica de alimentos. “Queremos sustentar o suporte da casa. Quando os pais morrem, é como tirar um alicerce. O tecto vem abaixo e cai sobre as crianças,” diz Sorensen.
Solução está próxima
Se Candrino iniciar o tratamento ARV, talvez em poucos meses não precise de percorrer os 45 quilómetros até Morrumbala-Sede para pegar os medicamentos. A cerca de 500 metros de Chingondole, no posto administrativo de Megaza, existe uma unidade de saúde que, segundo o médico chefe de Morrumbala, Dr. Júnior António, distribuirá antiretrovirais, em breve. “Temos apenas um técnico de saúde em Megaza, mas ele será treinado e fará o tratamento antiretroviral,” diz António.
Com aproximadamente 327 mil habitantes, o distrito de Morrumbala tem uma seroprevalência de 14 por cento, ou seja quase 46 mil pessoas vivem com HIV. Enquanto os antiretrovirais não chegam, resta aos doentes de Chingondole e arredores continuar a percorrer dezenas de quilómetros até um hospital ou depositarem toda a confiança nos cuidadores domiciliários que, com remédios básicos, fazem o possível.
lb/rb/ms
[ENDS]
|