Homens e mulheres vivem com o HIV de formas diferentes. Para elas o fardo é bem maior: quando o vírus é nelas detectado, são acusadas de, frequentemente, serem elas que o trouxeram para a família e, como consequência, são abandonadas pelos maridos e familiares.
“Como tivesse feridas por todo o corpo e o cabelo a cair, ele dizia que eu cheirava à carne crua e não suportava dormir ao meu lado,” diz Sónia Costa*, residente em Tete, província no centro noroeste de Moçambique.
Costa, também abandonada pelos filhos mais velhos, conta que “quando o meu marido soube que eu estava com Sida, depois que os nossos dois últimos filhos morreram, tratou logo de procurar outra mulher”.
A experiencia de Sónia Costa não é única. Josélia Mbanza, coordenadora nacional da rede de mulheres seropositivas Kuyakana, conta que “há pessoas que acreditam que todo o mal que acontece às mulheres é castigo merecido... e os homens mentalizaram que as mulheres são causadoras da Sida”.
Assim, a Sida é percebida como sendo “a doença de mulher.” As mulheres são acusadas de passar o vírus para os filhos e para o marido.
“O meu marido começou a ficar doente e a minha sogra disse que fui eu quem o infectou, mas eu só tenho este marido,” conta Costa.
Culpar e discriminar
A culpabilização da mulher está ligada a sua situação inferior na sociedade, explica a socióloga moçambicana Maria Cecília de Mendonça Pedro. E não está apenas associada a Sida.
““Num casal, ela é culpabilizada noutras coisas. Quando as crianças nascem com problemas genéticos, a culpa é da mãe. As doenças de transmissão sexual, também. Quando não há filhos, a culpa é da mulher e o marido tem o direito de devolvê-la aos pais, sem investigar as razões,” explica Mendonça.
Outro factor que sustenta a associação da mulher ao HIV é que o indicador mais usado para medir a epidemia refere-se às taxas de seroprevalência das mulheres grávidas.
A constante referência àquelas reforça a percepção de que a Sida é doença das mulheres, diz um estudo do Programa Conjunto das Nações Unidas para a Sida (Onusida).
Além disso, em muitas famílias, o vírus é descoberto quando a mulher engravida e faz o teste do HIV na consulta pré-natal.
Para não serem discriminadas, com medo de perder filhos, marido e terra, muitas mulheres grávidas recusam fazer o teste ou, fazendo-o, não revelam os resultados aos seus maridos.
Daquela forma, perdem a oportunidade de usar os serviços de corte de transmissão vertical, num país em que em cada ano nascem 350 mil bebés infectados.
Impurezas
No livro Tábula Rasa, o antropólogo moçambicano Cristiano Matsinhe descreve como as crenças sustentam a acusação sob as mulheres.
“As mulheres são tidas como as transmissoras do HIV/Sida, na medida em que muitas vezes são vistas como “frequentadoras” de estados de impureza, perigo e doença e tendem a transportar para os homens”, escreve Matsinhe, citando entrevistas feitas em Tete.
Nessa lógica, explica, os homens são tidos como vítimas das mulheres... e o potencial de perigo que a mulher carregaria estaria também associado a uma disposição consciente ou inconsciente, dela em transmitir o mal.
Matsinhe escreve que “o sangue que corre pela vagina seria tido como intrinsecamente impuro, associado à ideia de “nojo”, “sujo” e à ideia de transmissão de diferentes tipos de doenças aos homens, desde hérnias, tuberculose, e doenças sexualmente transmissíveis no geral...”
Essa associação da mulher a estados de impureza e perigo passou a ser extensiva ao HIV/Sida, remata Matsinhe.
Kutchinga
Mbanze contou ao PlusNews as consequências dessas crenças, para duas mulheres que Kuyakana tenta assistir em Maciene, província de Gaza, sul do país.
O marido de uma morreu de uma doença relacionada com a Sida. A esposa disse que o marido sofria de mudjiwa, doença causada pelos espíritos, e aceitou, depois do seu funeral, submeter-se ao kutchinga, ritual que consiste em manter relações sexuais com um dos irmãos do defunto para purificação – com o risco de espalhar o vírus.
A outra está grávida, padece há dois anos de uma infecção de transmissão sexual e tem cartão para receber tratamento antiretroviral mas não usa porque acredita sofrer da “doença do século, doença de mulher”, que é inevitável.
Perante este cenário, a Kuyakana forma líderes comunitários e do governo para sensibilizarem as comunidades, em particular as rurais, a aceitarem o convívio com os seropositivos.
Segundo Mbanze, é também urgente a educação para a protecção na família, pois há casos de familiares que expulsam as mulheres seropositivas.
Janana*, membro do Kuyakana, no início escondia ser seropositiva, mas hoje entende que “a sociedade precisa de ser educada para conviver com este problema.”
“Veja que o medo tinha razão de ser; quando apareci na televisão falando do meu estado de HIV, fui rejeitada pela comunidade onde eu vivia. Os meus filhos foram discriminados”, conta.
“Kuyakana”, que quer dizer reconstrução em tsonga (língua do Sul de Moçambique), foi criada em 2002 por dez mulheres seropositivas e hoje tem 17 grupos de mulheres em oito províncias.
*Nome fictício
ss/am/rb/ms
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