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Quero ver minhas filhas formadas e casadas
Dezembro 2009 (PlusNews)

Photo: Cassuça Benevides/PlusNews
Sou pai e mãe e agora dou muito mais valor à família
LUANDA, Meu nome é Rafael Campos, nasci em Luanda e nunca saí daqui. Sou proprietário de uma oficina e já tive mais funcionários, mas a doença foi diminuindo um bocadinho o meu rendimento de trabalho.

Quando a gente descobre que é seropositivo, não dá para ser o mesmo. Tem duas hipóteses: ou passa a amar mais a vida ou, em alguns casos que eu vejo da juventude, passa a detestá-la. Além de pensar em suicídio, alguns pensam em contagiar outras pessoas. Ficam revoltados com o mundo. Mas no meu caso, eu achei que a vida tinha que ser mais bem vivida, tinha que ser amada.

Descobri que era seropositivo quando fui acompanhar minha esposa que havia feito alguns exames de rotina. Foram duas surpresas: ela estava grávida e era seropositiva.

Apanhei um choque, mas tive que ser muito forte para não abalar a ela. Ela ficou muito deprimida. Não quis baixar a crista, porque queria recuperar o optimismo dela.

Quando voltamos à outra consulta, já no hospital Esperança (hospital de referência de HIV), me fizeram o teste e descobri que também era.

Dali para frente só estava preocupado com a minha família: A mulher, a nossa filha, que hoje tem nove anos, e as duas gêmeas que iriam nascer. Elas vão fazer dois anos, já fizeram o teste final e são seronegativas. Mas mesmo antes delas nascerem eu não me preocupava muito. Eu fiz algumas leituras e estava preparado para o caso delas serem seropositvas.

Comecei a dar valor à vida e a coisas que eu não prestava muita atenção como a família, os vizinhos, a natureza em si. Hoje acredito que sou uma pessoa muito mais amável, consigo entender as coisas de um outro modo, não paro para pensar em grandes preocupações.

O VIH para mim acabou por me tornar uma pessoa mais doce.

Minha esposa faleceu logo depois do nascimento das gêmeas. Ela não aceitou o tratamento. Se eu não pudesse ir com ela ao hospital, saísse com algum cliente, não pudesse acompanhá-la, ela não ia. Eu ia olhar o cartão dela e ela não tinha consulta marcada.

O preconceito existe. Eu já cheguei para tomar sopa numa pensão e não quiseram me atender. Me disseram que se eu quisesse tomar sopa, teria que trazer o meu próprio prato da minha casa. Mas eu sei que isto é falta de informação de outras pessoas. Eu peguei uma tigela da minha casa, levei para lá, serviram-e a sopa com a minha colher e eu tomei. Passei a fazer aquilo todos os dias e levava lá os fascículos que eu pegava no hospital Esperança: como a doença se contrai, como se transmite, os folhetos explicativos.

Eu converso muito com as pessoas, sou muito aberto quanto ao meu estado de saúde, raramente escondo. Hoje eu posso conhecer alguém e dizer: sou seropositivo e gostei de ti. Podemos ser amigos e vamos ver onde vai dar, o que é que pode dar.

Então as pessoas foram mudando de comportamento, porque eu não me fechei em momento nenhum. E até hoje, estou sempre a conversar com os amigos. Portanto, quando têm dúvidas, podem perguntar abertamente, não escondem.

Mas isto não inspirou a minha esposa. O preconceito começa no portador e termina no portador. Toda vez que eu dou uma entrevista eu digo isto: As pessoas que têm preconceito contra os seropositivos, quando descobrem que aconteceu com elas, não conseguem encarar.

Eu não participo de grupos de ajuda mútua, eu faço uma ajuda mútua singular. No meu dia-a-dia, a minha vida praticamente é esta: ajuda mútua. Por exemplo, quando eu vejo um seropositivo que não consegue lidar com a situação, eu não digo que isto não é um bicho de sete cabeças, que a vida não termina por aí... Eu vou mais pelo meu jeito. E hoje, pelo menos, a comunidade onde eu vivo observa isto. E as pessoas que eu convivo vêm que o VIH parece não ser uma coisa tão séria, porque vêm que eu trabalho todos os dias, e eles sabem que a vida não acaba aí.

As pessoas podem se espelhar nas outras. Se eu estiver deprimido, não consigo fazer nada porque descobri que sou seropositivo, talvez me ajude mais observar um outro que leve uma vida normal. Talvez até eu não queira ir à consulta, não queira levar minhas crianças à consulta, porque sinto que o mundo acabou. Se o outro vem, leva minhas crianças na consulta, faz um trabalho na minha casa, como se fosse um amigo, um irmão, aí então o que é que me vem na minha alma? Eu vejo que ele está bom, faz tudo isto, por que que eu não faço?

Eu tenho exemplos concretos: A rua onde eu vivo era totalmente alagada. Eu criei uma vala com recursos meus e força física também pessoal.

As pessoas já sabiam que eu era seropositivo e estava ali com eles, gastando dinheiro para cavar a vala de drenagem, cavando. Às vezes abandonava aquilo um bocadinho, às 12 horas, para levar comida à minha esposa no hospital. Depois regressava e continuava com o trabalho. E isto criou estabilidade na rua. A rua é o que é e as pessoas sabem que tem aquilo graças a mim.

Isto acabou mostrando a outras pessoas do mesmo ambiente que são seropositivas, que a vida não terminou aí. E muito do que eu tenho hoje, comecei a aperfeiçoar mais depois que descobri que sou seropositivo.

Agora eu sou pai e mãe, continuo com o trabalho na oficina e tento sensibilizar os amigos.

Os homens que eu conheço na sua maioria não querem fazer o teste. Alguns dizem para mim que mesmo que a esposa descubra que é seropositiva, não vão fazer o teste.

Porque a vida em Angola é normalmente assim: tem a esposa em casa e procura mais outros compromissos fora - as namoradas. Damos o nome de sexo ocasional a aquilo que devia ser chamado de prostituição.

Então, quando encaram isto, ao invés de fazerem o teste preferem fugir, abandonam a esposa. Se a esposa diz que é seropositiva, abandonam a família e tomam outro rumo. Mudam de residência e vão procurar alguém que não tenha conhecimento do seu status.

Muitas vezes penso que estou jogando palavras ao vento, que estou falando a ouvidos sujos. Tenho amigos que dizem que usam o preservativo, mas de repente aparece uma mulher grávida de um deles, que não é a esposa.

Já tive tuberculose, fiz controle, passou. Nunca tive nada de grave. Como todo angolano que não tem muita situação financeira, às vezes é um pouco difícil a questão da alimentação. Eu não como os fritos. Como verdura, como muito peixe grelhado, não acumulo alimentação no frigobar, na arca, compro no dia-a-dia, meu peixe é fresco. Como frutas. Às vezes tomo um pouquinho de vinho, mas é raro.

Normalmente quando faço entrevistas em programas de televisão recebo sempre visitas, por causa da minha maneira de ser aberto. E amigas que eu tenho que trabalham em hospitais, quando têm pacientes resistentes, trazem os pacientes para conversar comigo.

Se me pedirem um conselho do VIH, também varia. Se forem seropositivos, vou dizer que não influenciou muito na minha vida, toco a vida para frente e está tudo bem. Mas como normalmente no meio que estou a maioria das pessoas não fazem o teste, o que eu procuro lhes mostrar é que eles deviam levar um estilo de vida diferente, uma vida diferente, porque a minha vida não tem sido fácil.

Não obstante de eu estar aqui a rir, a jogar bola todos os domingos numa equipa local, eu gostaria de estar com a minha vida completa, de ter minha esposa ao meu lado. Minha vida foi amputada.

A minha abertura cria espanto. Perguntam muitas vezes se é verdade que sou seropositivo, se não estou inventando. Não só homens, como as mulheres com quem eu converso.

Porque normalmente quem é seropositivo não se abre. E aí os vizinhos confirmam: ele é seropositivo sim. E só aí que acreditam porque é raro. O meu cartão de visitas tem uma observação que diz: sou portador de VIH e não sou doador.

Encaro isto com a maior naturalidade possível. Discriminação prá mim, os nomes que chamam, não dou muita importância para isto.  Acho que acabei com a discriminação no meio que eu vivo. Pelo menos para mim, diretamente. Me considero muito aberto, sou aconselhador e não deixei de sonhar.

Pretendo ter uma grande oficina em outro sítio que tenho, lá no lado do bairro Patriota. Mas o principal é viver para ver minhas filhas formadas e casadas.

cb


[FIM]

[Os depoimentos acima foram obtidos pela IRIN, um serviço de notícias humanitárias, mas não necessariamente refletem a opinião das Nações Unidas.]

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