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Samira, Eu vi alegria nos olhos de outros seropositivos
Maio 2007 (PlusNews)

Photo: Zoe Eisenstein/PlusNews
Nenhuma outra mulher se revelou como eu. Sofri mas não me arrependo
ASSOMADA,

Samira Pereira Fernandes


Eu estava preocupada com o comportamento do meu marido. Ele tinha várias aventuras e traficava drogas. Eu sabia o que era o HIV e tudo indicava que nós dois estávamos correndo o risco de ser infectados.

Três anos atras, eu disse a meu marido que iria fazer o teste, e foi o que fiz, com o apoio de uma psicóloga. Quando recebi o resultado, eu o mostrei a meu marido. Eu estava tão zangada com ele que queria matá-lo. Ele fugiu de Cabo Verde.

Foi horrível, mas eu não podia fazer nada, eu só tinha que viver. No começo não contei a notícia a ninguém, mas as pessoas começaram a desconfiar. As pessoas são curiosas, fazem de tudo para descobrir a verdade.

Eu não escondi nada. Desde criança, sempre fiz o que achava que era certo. Nunca me importei com o que os outros pensavam. Em alguns meses, apareci na televisão porque eu não queria ser tão maltratada. Eu queria um melhor tratamento para nós, mulheres seropositivas.

Houve muita discriminação e eu me mudei várias vezes. Nas casas onde morei, nunca me deixaram ter acesso à cozinha nem ao banheiro.

Naquela época as mulheres seropositivas não conseguiam se integrar na sociedade. Elas preferiam guardar segredo, mas ouve muitos casos onde as famílias expulsaram-nas de casa. Outras perderam seus empregos. Quando faziam o tratamento antiretroviral, inventavam uma outra doença.

Só me restaram dívidas

Quando eu soube que era seropositiva, eu vendia sofás no mercado. Mas não trabalhei mais desde que apareci na televisão. Tentei abrir um quiosque para vender produtos de beleza. Algumas pessoas compravam artigos mas acabavam não pagando; outras não compravam porque não queria ser vistos comprando artigos da minha loja. Foi muito difícil.

Comecei a trabalhar no centro juvenil de Assomada. Eu trabalhei lá durante um ano mas eles não tinham recursos para continuar pagando meu salário. De toda maneira, eu não gostava de lá porque eu me sentia sempre obrigada a falar da minha experiência. Os jovens são muito curiosos e eu tinha que responder a muitas perguntas.

Investi meu último salário num negócio que abri com meu primo. Mas quando descobriram que eu estava envolvida, o negócio não deu certo.

Minha irmã fazia bolos e iogurtes que estocava na minha geladeira. Quando as pessoas descobriram, eles pararam de comprar.

Nada do que eu tentei fazer deu certo. Só me restaram dívidas. Como não vou conseguir arrumar um emprego nem investir em um negócio, decidi ficar em casa a fazer crochê. Mas não sei o que vou fazer com isto, não sei se as pessoas vão querer comprar o que faço.

Depois que saí do centro juvenil, consegui apoio de uma associação para pagar sete meses de aluguel. Agora não tenho mais apoio nenhum e só continuo vivendo aqui por milagre.

Tenho uma dívida de 15.000 escudos cabo-verdianos (136 Euros) do aluguel e estou pensando em vender minha geladeira para pagá-la. Eu já cheguei a vender minhas jóias; às vezes ganhei dinheiro fazendo palestras sobre o HIV.

Existe um programa que oferece micro-empréstimos para ajudar pessoas seropositivas a abrir um negócio. Para mim é muito difícil ter um negócio porque todos já me conhecem.

Não me arrependo

Se eu não tivesse aparecido na televisão, eu poderia estar vivendo normalmente, como os outros. Eu poderia me arrepender de tê-lo feito, mas não vou. O que está feito está feito, não dá para voltar atrás.

Eu também pude ver o resultado do meu trabalho. Eu vi alegria nos olhos de outros seropositivos. Desde então, muitas pessoas seropositivas entenderam que podiam viver plenamente suas vidas sem ficar se preocupando com o olhar dos outros.

Mas nenhuma outra mulher ser revelou como eu. E quem pode condená-las quando vê-se o que aconteceu comigo.

Eu conheço muitos outros seropositivos – aqui em Assomada, em Praia e em outras ilhas. O que importa para eles não é se mostrar na televisão, e sim aceitar a doença, conversar com suas famílias e impedir a propagação do vírus.

Em termos de estigma, as coisas estão melhorando. Existe muita informação e campanhas de sensibilização, isto está ajudando a mudar a atitude das pessoas.

Hoje, graças a Deus, muitas pessoas seropositivas recebem apoio.

[FIM]

[Os depoimentos acima foram obtidos pela IRIN, um serviço de notícias humanitárias, mas não necessariamente refletem a opinião das Nações Unidas.]

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