MOÇAMBIQUE: Estudo vai fornecer número confiável de prevalência nacional
MAPUTO, 6 Novembro 2009 (PlusNews) - Pela primeira vez será conhecida a prevalência real do HIV/SIDA na população moçambicana, com a divulgação dos resultados de um inquérito populacional prevista para Março de 2010.
O Inquérito sobre SIDA (INSIDA) indicará estimativas nacionais mais exactas, pois inclui homens, jovens e crianças entre os 15 mil moçambicanos escolhidos aleatoriamente e testados em 2008, a partir de suas residências em todo o país. Até agora, Moçambique, como a maioria dos países, usava a prevalência entre as mulheres grávidas para calcular a prevalência nacional.
O inquérito vai trazer resultados também sobre os riscos sócio-comportamentais e o impacto da informação recebida e absorvida pela população em relação ao comportamento da epidemia do HIV/SIDA no país.
O Ministério da Saúde (MISAU) afirma que este estudo vai dizer com mais precisão o número de moçambicanos seropositivos: “A melhor prevalência será sabida no final do INSIDA, porque esse estudo é feito na base populacional. Só depois disso saberemos com mais certeza o número aproximado de moçambicanos infectados”, disse Leonardo Chavane, porta-voz do MISAU.
O Programa Global do SIDA do Centro de Controlo de Doenças e Prevenção (CDC) norte-americano, assistiu ao laboratório do Instituto Nacional de Saúde (INS) nas análises da testagem.
Opinião dos seropositivos
Os seropositivos divergem sobre a avaliação do INSIDA e do impacto que o seu resultado vai trazer.
Para Benedito Pedro*, um jovem, que saiu da cidade da Beira e está a viver em Maputo, este inquérito vai direccionar melhor as acções do governo moçambicano no que toca aos programas de resposta ao HIV/SIDA.
“Eu acho que sabendo quantos somos vai ser bom, porque assim o governo vai saber quanto dinheiro precisa para os programas de resposta ao HIV/SIDA, tanto no tratamento como na prevenção. Isso vai ser bom”, disse.
Carlota, 28 anos, envolvida nas recentes manifestações organizadas pela Liga contra a Discriminação, em protesto contra a piora no tratamento de seropositivos, mostra-se mais céptica:
“Não acho que a prevalência venha a ser muito diferente dos 16 por cento que se conhece como oficial. Mas saber os números não vai trazer melhorias no nosso atendimento e tratamento. Vai ser apenas para confirmar que muitas pessoas continuam a infectar-se”, disse.
Divergências
Oficialmente o governo de Moçambique estima a existência de uma seroprevalência de 16,2 por cento, na população adulta.
Esta cifra foi calculada a partir da testagem de cerca de 11 mil grávidas que aderem às consultas pré-natais nos chamados Postos Sentinela. Os resultados dos testes dos Postos Sentinelas são usados para estimar a prevalência de HIV em Moçambique.
O Programa Conjunto das Nações Unidas para a SIDA (Unaids) em Moçambique discorda da existência de uma prevalência de 16,2 por cento no país e considera errado o uso dessa percentagem.
“A prevalência do HIV/SIDA em Moçambique nunca foi de 16 por cento. Essa percentagem é apenas de mulheres grávidas. Em Moçambique a prevalência do HIV/SIDA na população adulta é de 14 por cento”, afirma Maurício Cysne, coordenador da Unaids em Moçambique.
A porcentagem de 14 por cento vem do Impacto Demográfico do HIV/SIDA em Moçambique, do Instituto Nacional de Estatística (INE), recentemente publicado e elaborado em parceria com a Unaids.
“Quando nós fazemos a estrapolação do número das mulheres grávidas com a população no geral, usamos os dados demográficos do país, mais os dados do estudo Sentinela e fazemos cálculos para ter a prevalência no país. A prevalência nacional é de 14 por cento da população adulta, a partir dos 15 anos”, explicou Cysne.
Segundo ele, o INE conjugou o Impacto demográfico de HIV/SIDA, usando os dados do último censo, em 2007, com a prevalência dos Postos Sentinela e a partir daí fez estrapolações e cálculos que resultaram nos 14 por cento.
De facto, o Impacto Demográfico do HIV/SIDA em Moçambique, publicado recentemente pelo Instituto Nacional de Estatísticas, refere que a Unaids recomenda calibrar a prevalência obtida pela ronda de vigilância com dados de inquéritos populacionais para estimar o nível absoluto da prevalência.
Mas como Moçambique não tinha ainda inquéritos populacionais, fez-se a calibração com base em dados de outros países.
“Os dados epidemiológicos existentes referem-se às mulheres grávidas na sua primeira consulta pré-natal nos Postos Sentinela. Mesmo que não incluam informação de homens, nem de mulheres não-grávidas, o consenso internacional é de que a prevalência do HIV entre as mulheres grávidas é reflexo das tendências ao longo do tempo na evolução da prevalência do HIV de toda a população adulta”, esclarece o documento.
De acordo com a previsão do INE, projecta-se um aumento de pessoas vivendo com o HIV nos próximos anos.
Até 2010 haverá 1,6 milhão de pessoas infectadas. Mas o crescimento anual das infecções pelo HIV, que chegou a 13 por cento entre 2000 e 2001, deve ser reduzido para três por cento entre 2008 e 2009.
Mas, de acordo com Cysne, "a prevalência nacional exacta ainda não existe em Moçambique. O que temos é prevalência na população adulta e em mulheres grávidas. Apenas isso".
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