ÁFRICA DO SUL: Sucesso de clínica mostra que prevenção deveria incluir programa de circuncisão
JOANESBURGO, 9 Setembro 2009 (PlusNews) - No Centro de Circuncisão Masculina Bophelo Pele, na pequena cidade de Orange Farm, a cerca de 45km de Joanesburgo, William Maiko, 18 anos espera. E parece surpreendentemente calmo para alguém que está prestes a submeter-se a uma cirurgia para a remoção do prepúcio.
"Eu ouvi dizer que devemos vir aqui e ser circuncidados para não ficarmos doentes”, disse elem, acrescentando: “Meus pais acham que é uma boa coisa”. Maiko é um dos cerca de 100 homens a partir de 15 anos que vêm ao centro todos os dias e e ocupam brevemente um dos sete leitos do ambulatório, separados por cortinas.
Uma das cinco enfermeiras administra um anestésico e prepara o paciente, enquanto o médico vai de leito em leito praticando a intervenção. Um aparelho eletrónico de cauterização fecha a ferida com mais eficiência que pontos de sutura e, geralmente, 20 minutos depois o paciente já pode sair andando.
"Doeu menos do que eu esperava" disse Sibusiso Mbele, 18 anos. "Vou dizer a meus amigos que é uma boa coisa vir aqui."
A política sul-africana em matéria de circuncisão ainda está a ser finalizada, directivas ainda devem ser definidas e trabalhadores da saúde treinados, o que faz do Centro Bophelo Pele o único do país a proporcionar a circuncisão masculina gratuitamente.
Outros países da África austral já começaram a lançar programas de circuncisão masculina em larga escala, em resposta à comprovação de que, quando medicalizada, ela diminui em 60 por cento o risco de contaminação pelo HIV.
12 mil circuncisões desde 2008
Na África do Sul, os centros de saúde públicos só efetuam a circuncisão por motivos médicos; os que a escolhem pour outros motivos devem pagar um médico particular.
Apesar dos limites geográficos, o Bophelo Pele já circuncidou cerca de 12 mil homens desde Janeiro de 2008 e mostrou que a circuncisão massiva é uma estratégia de prevenção do HIV viável e economicamente vantajosa.
Segundo Dirk Taljaard, diretor do projecto, cada circuncisão custa entre US$25 e US$37, dependendo do número de procedimentos efetuados por dia. Cerca de US$ 17 são gastos com material cirúrgico, o resto com as equipas, custos da cirurgia e na custosa campanha de informação que visa a educar cada família da cidade sobre a circuncisão masculina.
Antes de ser circuncidado, Maiko teve que frequentar uma reunião de grupo onde recebeu informações gerais sobre como proteger-se contra o HIV e pode vizualizar ilustrações de um pénis circuncidado e outro não. A equipa descobriu logo no início do projecto que muitos homens pensavam ter sido circuncidados durante o rito de iniciação tradicional, mas ainda tinham o prepúcio intacto, ou parcialmente circuncidado.
Circuncisão tradicional
Maiko tinha frequentado a escola de iniciação mas seu pai o tirou de lá antes que as circuncisões fossem praticadas: “Ele pensava que não era seguro ser circuncidado lá.”
Após tomar conhecimento dos benefícios da circuncisão masculina, não somente como proteção contra o HIV, mas também pela higiene e a redução do risco de câncer genital, os homens que decidem submeter-se ao procedimento recebem uma sessão de aconselhamento e a possibilidade de aconselhamento e testagem voluntária do HIV (VTC, em inglês).

Photo: Kristy Siegfried/PlusNews  |
| Esperando a vez, Phineas Soko conta: "Minha mulher perguntou 'Por que não fizeste isto antes?'" |
Cerca de 35 por cento aceitam a proposta – nada mal para um grupo considerado como difícil de alcance pelas campanhas de testagem. Os que testam positivo ainda podem ser circuncidados, se sua contagem de CD4 (medida de força do sistema imunitário) estiver acima de 200.
Encoraja-se os homens a virem acompanhados de suas parceiras às sessões de aconselhamento, ou pelo menos a conversar com elas sobre o que aprenderam. E também a informar-lhes que devem abster-se de ter relações sexuais durante pelo menos seis semanas, para que a ferida cicatrize.
Maiko não contou à sua namorada sobre a circuncisão. “É só uma surpresa”, disse ele, sorrindo timidamente. “Ela não vai dizer nada, porque ela sabe que se eu não for circuncidado, ela vai ser infectada por mim ou eu vou ser infectado por ela.”
Ele sabe que a circuncisão só proporciona uma proteção parcial contra o HIV. “Eles nos dizem que nós [ainda] devemos usar o preservativo”, disse ele.
Os homens devem voltar três dias depois do procedimento para que a equipa [médica] possa verificar se houve infecção ou má cicatrização, mas menos de dois por cento apresentam algum problema.
Taljaard disse que os homens mencionam a protecção contra o HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis como razão principal da circuncisão, mas uma rápida pesquisa entre aqueles na sala de espera do Bophelo Pele revelou outros motivos.
A opinião das parceiras parece ter peso. “Uma amiga da minha esposa trouxe seu filho aqui, então minha esposa me perguntou: 'Por quê não fizeste isso antes?'”, disse Phineas Soko, 48 anos. “Alguns povos fazem isso, mas nós, Zulus, não sabemos nada sobre isso.”
Soko cedeu à pressão de sua esposa e de seus amigos. “Eu vejo alguns amigos dizerem que deves cortar essa coisa, [porque] algumas vezes pegas doenças”, disse ele ao PlusNews.
Homens mais jovens pensavam que as mulheres preferiam fazer sexo com homens circuncidados; 40 por cento das mulheres entrevistadas pelo Bophelo Pele confirmaram que preferiam os homens circuncidados, mas seus motivos tinham mais a ver com higiene do que com sexo.
Brian Makholo, 25 anos, está a aproveitar deste serviço gratuito para lidar com uma condição difícil que o fez sofrer durante toda sua vida: “fimose”, ou seja a abertura do prepúcio muito estreita.
Taljaard disse que o centro proporciona aos homens muitos benefícios para sua saúde sexual que não eram tão facilmente disponíveis no setor público de saúde: “É geralmente a primeira vez que recebem tais serviços.”
Ele não vê motivo algum para retardar o lançamento de um programa massivo de circuncisão masculina: os riscos são mínimos, o custo baixo considerando-se o número de infecções que podem ser evitadas, e a demanda importante.
O governo sul-africano pode estar a lutar para financiar um programa nacional de circuncisão masculina, mas em outros países os doadores da comunidade internacional estão prontos a financiar um procedimento barato que dura a vida inteira. “Não fazer nada, eu acho, não é mais aceitável”, disse Taljaard.
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