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ÁFRICA DO SUL: Quão segura é a circuncisão tradicional?


Photo: MujahidSafodien/IRIN
Promise Mhangwana não foi recusado pela escola de iniciação apesar da pouca idade
TZANEEN, 20 Agosto 2008 (PlusNews) - Quando Steve Matlhabela, 16 anos, deixou casa numa fria manhã de Junho para visitar alguns parentes num vilarejo não muito longe do seu, nas colinas da cidade de Tzaneen, na província sul-africana de Limpopo, ele não pensava que só voltaria para casa um mês depois.

No vilarejo de seus parentes, Steve encontrou um menino que já conhecia, que o convidou para ir assistir um filme. Steve concordou, e eles andaram um bocado antes de chegar a um acampamento remoto, onde logo ficou claro que não haveria filme algum.

“No começo eu não tive medo, porque havia muitos meninos lá”, disse Steve, “mas eles me disseram para tirar a roupa”. Suas roupas foram levadas à sua mãe pelo mesmo menino que o tinha levado até o acampamento. “Seu filho foi para a iniciação”, ele disse a ela.

O primo de Steve, Thabang, que vive com eles desde que sua mãe morreu de uma doença relacionada a SIDA em Fevereiro, também estava na “escola” de iniciação. A família foi avisada de que a taxa para os dois seria de R1.420 (US$ 192), uma quantia significativa já que a única renda da família são duas bolsas de apoio à infância, num total de R420 (US$ 57) por mês.

“Nós achamos que não podíamos fazer nada”, disse a avó de Steve, Rosinah Matlhabela. Ir à polícia não era possível, disse ela, porque a escola era dirigida por um capitão da polícia. Eles acabaram por pegar um empréstimo para pagar as taxas.

Steve foi circuncidado por um médico tradicional logo após ter chegado na escola. Nenhuma anestesia foi dada, porque suportar a dor do corte é considerado vital para tornar-se um homem. Foi usada uma lâmina descartável, mas não foi feito curativo; a única protecção contra uma infecção foi o uso de um remédio tradicional.

Mais de um mês depois da circuncisão, Steve disse que a ferida ainda doía mas que não iria ao médico. “Eles me disseram que se fosse ao médico, não seria um homem de verdade.”

Circuncisão tradicional ignorada

Desde que três estudos randomizados conduzidos em 2005 e 2006 mostraram que a circuncisão poderia reduzir em até 60 por cento o risco de infecção pelo HIV nos homens, organizações não-governamentais internacionais, doadores e até alguns governos africanos têm canalizado recursos para criar uma demanda para a circuncisão masculina e aumentar a capacidade dos hospitais e clínicas para atendê-la.

Enquanto isso, alguns especialistas da saúde pública reclamaram que há pouco interesse e poucos recursos dirigidos para tornar a circuncisão tradicional mais segura.

Limpopo tem, desde 1996, uma lei que regulamenta a conduta das mais de 200 escolas de iniciação na província, mas os tabus culturais que impedem os iniciados de falarem de suas experiências e o envolvimento de oficiais locais na direcção das escolas tem tornado difícil fazer com que esta lei seja respeitada.

Em 2007, cinco meninos morreram enquanto frequentavam as escolas de iniciação da província, e o mesmo número morreu durante a sessão de iniciação deste ano, de Junho a Julho.

Segundo algumas fontes consultadas pelo PlusNews, é comum que meninos muito mais jovens que Steve sejam enganados ou coagidos a ir para a escola, sem o conhecimento ou a permissão de um adulto responsável.

“Os que frequentam a escola este ano vão trazer os outros no ano que vem, porque a escola lhes promete dinheiro”, disse Eddy Hlongwini, director de uma associação local de médicos tradicionais. “Eles dizem que o lugar é legal, que a comida é boa, e uma vez que eles estão lá, não têm como escapar.”

''Os que frequentam a escola este ano vão trazer outros no ano que vem, porque a escola lhes promete dinheiro.''
Khosi Vusani Netshimbupfe, director de um grupo de escolas de iniciação supervisionado pela Casa dos Líderes Tradicionais, explicou que segundo a lei, os meninos devem ser maiores de 12 anos e ter a permissão dos pais para frequentar as escolas. Um profissional médico também deve certificar que eles estão aptos a submeter-se ao procedimento e a passar um mês num acampamento remoto nas montanhas no meio do inverno, usando nada mais que um cobertor.

Alguns meninos entram nas escolas sem respeitar nenhum destes critérios, admitiu Netshimbupfe. “Se eles forem pegos antes de verem o que acontece lá, eles podem ser mandados de volta. Mas o problema é se eles já entraram e viram alguma coisa; segundo o costume, se você viu o segredo, não podes mais voltar atrás.”

Quando Promise Mhangwana, 9 anos, fugiu da casa de sua avó para ir atrás de seu tio de 12 anos numa escola de iniciação, ninguém o impediu de entrar no acampamento. Quando ele voltou para casa, estava a andar com dificuldade, mas recusou-se a contar para sua avó que tinha sido circuncidado. Ele acabou deixando que um enfermeiro de uma clínica local cuidasse da ferida infeccionada.

“Nós recebemos esse tipo de criança todo inverno”, disse o enfermeiro, que preferiu o anonimato. “Só agora existem oito meninos a vir fazer curativos, mas a maioria deles não deixa uma mulher ver esta região, então quando eles chegam em casa eles não contam o problema a suas mães.”


Photo: MujahidSafodien/IRIN
Em 2007, 243 escolas de iniciação foram registadas e 32.300 meninos foram iniciados
Os regulamentos estipulam que as escolas de iniciação não devem cobrar mais do que R350 (US$ 48), mas algumas escolas cobram mais do que o dobro desta quantia. As famílias estão cada vez mais a preferir mandar seus filhos aos hospitais para ser circuncidados, pela consideravelmente inferior taxa de R150 (US$ 21), mas isto não impede que os meninos sejam ridicularizados por seus colegas.

“Eles riem deles, ignoram-nos, principalmente na época da iniciação”, disse o enfermeiro. “Meu sobrinho costumava ir ficar na cidade com minha irmã para evitar esta situação, mas este ano ele foi [à escola]; ele disse que estava cansado de esconder-se.”

Morris* mandou seus três filhos ao hospital para serem circuncidados. “Eu não queria que eles fossem para a montanha, não é seguro”, disse ele. Ele queria proteger principalmente seu filho mais novo, Lucky*, de 15 anos, que sofre de asma.

Mas Lucky foi enganado por alguns meninos que prometeram levá-lo a uma festa com muita comida e bebida, e foi levado até uma escola. Morris teve que reunir R650 (US$ 89) com os parentes para pagar a taxa da escola e seu filho voltou doente. “Estava frio, e ele não pode ficar no frio”, disse ele.

Falta de supervisão

A polícia local hesita em envolver-se no que descreve como uma “questão de tradição”. “Vocês devem falar com os chefes”, disse o comissário de polícia Ngoveni Khazamula. “Isto não é um problema para a polícia.”

Cirurgiões tradicionais têm a obrigação de ser registados junto ao departamento da saúde após ter recebido formação, mas licenças para que as escolas de iniciação possam operar legalmente são concedidas pelos chefes locais.

Alguns chefes “consideram isto como um negócio”, disse um líder local, que não quis ser citado. “Eu digo às pessoas para não irem às escolas de iniciação; eu acho que é uma perda de tempo. Em nossa tradição há coisas boas e coisas ruins, e a minha tarefa é descartar as coisas ruins.”

O médico tradicional local Eddy Hlongwini disse ter uma licença e médicos registados não garantia que as escolas priorizassem a segurança dos iniciados. “Alguns são registados mas eu acho que isto não significa nada; no ano passado houve muitos acidentes”, disse ele. “Uma vez que eles têm a licença, eles podem dirigir seis escolas por ano, o que significa que eles não podem cuidar de todos os meninos.”

Netshimbupfe admitiu, “Acontece, sim, que algumas pessoas que dirigem estas escolas a considerem como um esquema para ganhar dinheiro”, mas discordou da idéia de que o desmantelamento das escolas de iniciação ilegais fosse uma questão só para os chefes locais. “Se alguém infringe uma lei, esta pessoa pode ser multada num tribunal”, notou ele.

Khazamula disse que sua secção não tinha recebido nenhuma queixa envolvendo as escolas de iniciação, mas uma das famílias entrevistadas pelo PlusNews disse que tinha pedido à polícia para ajudá-los a tirar seu filho de uma escola.

“Nós telefonamos para a polícia para pedir-lhes para ajudar-nos a tirá-lo da montanha, mas eles disseram que tinham medo de ir até lá”, disse a avó do menino.

*nomes fictícios

ks/he/go/dc/ll


Tema(s): (IRIN) Artes/Cultura, (IRIN) Gênero, (IRIN) Prevenção, (IRIN) Juventude

[FIM]

[Este boletim não reflecte necessariamente as opiniões das Nações Unidas]
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