GLOBAL: Crianças esquecidas pela resposta à SIDA
CIDADE DO MÉXICO, 8 Agosto 2008 (PlusNews) - Grandes avanços foram feitos na provisão de tratamento antiretroviral (ARV), e a prevenção ao HIV está a receber mais atenção do que nunca, mas a resposta global à SIDA negligenciou as crianças, disseram especialistas na 17ª Conferência Internacional de SIDA, na Cidade do México.
“As crianças foram esquecidas pela resposta à SIDA”, disse Linda Richter, do Conselho de Pesquisa em Ciências Humanas (HSRC, em inglês), da África do Sul. “Elas são visíveis para propaganda, mas completamente invisíveis na resposta.”
Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/SIDA (ONUSIDA), apesar da existência do tratamento com ARV que pode prevenir a transmissão do HIV de mãe para filho (PMTCT, em inglês), há uma estimativa de que 370 mil crianças foram infectadas em 2007, das quais 270 mil morreram. Dois milhões de crianças abaixo de 15 anos estão a viver com HIV, um aumento de oito vezes desde 1990.
Enquanto cerca de 30 por cento dos adultos que precisam de ARVs têm acesso a ele, apenas 10 por cento das crianças seropositivas que precisam desses medicamentos estão a recebê-los. Como resultado, das 1.200 crianças infectadas por HIV todos os dias, apenas metade delas irá chegar ao seu segundo aniversário.
“Da prevenção da transmissão vertical ao acesso a tratamento, passando pelo cuidado seu bem-estar emocional, as crianças foram deixadas de fora da resposta global à SIDA”, afirmou Agnes Binagwaho, directora executiva do Conselho Nacional de Controle da SIDA de Ruanda e co-presidente da Joint Learning Initiative on Children and HIV/AIDS, que trabalha para aliviar a difícil situação das crianças afectadas pela pandemia.
Embora a maior parte das crianças seropositivas tenham contraído o vírus de suas mães, há um número significativo de meninas jovens que têm sido infectadas através de transmissão sexual, esclareceu Alex de Waal, director do programa do Conselho de Pesquisa em Ciências Sociais, uma organização internacional sem fins lucrativos.
“Toda a atenção renovada à prevenção do HIV deve focar nas meninas jovens”, exortou.
Citando um estudo realizado em dois distritos de Dar es Salaam, capital comercial da Tanzânia, que revelou que meninas adolescentes recebem mais de 20 propostas de sexo, de Waal afirmou: “Essas são meninas para as quais o modelo tradicional de prevenção ABC [sigla em inglês para abstinência, fidelidade e uso de preservativo] tem utilidade limitada por causa do seu desfavorecimento económico e desvantagem social.”
Resposta focada na família
Diversos palestrantes afirmaram que considerar as crianças no contexto familiar e não apenas como indivíduos seria essencial para melhorar tanto a prevenção quanto tratamento para elas.
“Manter a mãe viva é crucial para famílias e crianças”, disse Linda Sherr, uma cientista clínica da University College London do Reino Unido.
Considerando que as famílias arcam com 90 por cento do custo financeiro dos cuidados com crianças seropositivas e recebem pouco apoio do governo e outros envolvidos, Binagwaho afirmou que as famílias devem ser postas no “centro da resposta ao HIV para as crianças”.
“Precisamos revisar a arquitetura financeira da resposta, para conseguir alcançar as famílias de maneira mais flexível e fortalecer a base econômica das pessoas que cuidam dessas crianças”, disse Michael Sidibe, vice-director executivo do ONUSIDA.
Segundo Jim Kim, do Centro de Saúde e Direitos Humanos da Universidade de Harvard, oferecer serviços de prevenção e tratamento gratuitos não é o suficiente para muitas famílias pobres que não têm meios financeiros para levar seus filhos aos centros de saúde.
Richter, do HSRC, afirmou que o apoio a famílias precisa ser na forma de mesadas de tratamento, seguro de saúde, subsídios ou até mesmo em dinheiro.
“Dar às mulheres dinheiro para suas famílias parece funcionar melhor do que dar a elas alimentos de graça, porque elas podem comprar os alimentos que precisam e vão comer; comida que elas sabem como estocar”, disse ela. “Muitas vezes, quando as famílias recebem alimentos, elas trocam com os vizinhos ou dão, tanto por não serem práticos ou por não gostarem do sabor.”
Palestrantes afirmaram que os doadores não precisam necessariamente esvaziar ainda mais seus bolsos para financiar tais iniciativas, mas teriam simplesmente que dar uma boa olhada em como gastaram os fundos existentes.
“Mesmo se nenhum dinheiro adicional for gasto, nós podemos trabalhar com o que temos”, observou Binagwaho. “Tudo depende de como e para onde os fundos são direccionados.”
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