GLOBAL: Gastos com SIDA batem recorde, mas precisam de mais foco
 Photo: Allan Gichigi/IRIN  | | Activistas anti-pobreza dizem que mais dinheiro deve ser gasto no nível das comunidades | NAIRÓBI, 14 Julho 2008 (PlusNews) - Os financiamentos à resposta ao HIV/SIDA nos países de média e baixa renda atingiram um nível recorde em 2007, segundo um novo relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/SIDA (ONUSIDA).
Os fundos doados pelo Grupo dos Oito (G8, grupo dos sete países mais ricos do mundo, e a Rússia), a Comissão Européia e outros doadores atingiram US$ 6,6 bilhões no ano passado, de US$ 5,6 bilhões em 2006. Entrentanto, apesar de tanta generosidade, segundo a ONUSIDA ainda existe um déficit de financiamentos de US$ 8,1 bilhões para programas de HIV/SIDA considerados essenciais.
Os Estados Unidos são o maior doador e forneceram 20 por cento dos recursos em 2007, seguidos pelo Reino Unido. Alguns outros países não-membros do G8 como a Holanda, a Suécia, a Áustria e a Irlanda também forneceram um auxílio considerável.
O relatório sai ao mesmo tempo em que o G8 – Grã-Bretanha, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Rússia e Estados Unidos – reiteraram o compromisso feito na reunião de cúpula em 2005, em Gleneagles, Escócia, de destinar US$ 60 bilhões à resposta à doença na África; o compromisso reiterado acrescentou cinco anos à iniciativa.
Na cúpula do G8 na semana passada em Hokkaido, no Japão, os líderes políticos também anunciaram que forneceriam, até 2010, 100 milhões de mosquiteiros tratados com inseticidas para o controle da malária no continente africano, e que trabalhariam no sentido de aumentar as equipes médicas nos países que estão a sofrer um déficit importante de profissionais da saúde.
“O G8 tomará medidas concretas para reforçar a conexão entre as atividades relacionadas ao HIV/SIDA e os programas de planejamento familiar voluntário e saúde reprodutiva e sexual, no intuito de melhorar o acesso aos cuidados de saúde, o que inclui a prevenção da transmissão do HIV de mãe para filho, e atingir os Objectivos de Desenvolvimento do Milênio [MDGs, em inglês], adotando uma abordagem multisetorial e promovendo o envolvimento e a participação das comunidades”, disse uma declaração do G8.
O anúncio do financiamento foi recebido com alívio pelas organizações que trabalham na reposta à doença e à pobreza na África; muitos comunidados de imprensa tinham sugerido que um comunicado a ser publicado pelo G8 omitiria as metas HIV/SIDA.
Entretanto, para algumas organizações, o compromisso ficou aquém das expectativas. A ONG anti-pobreza ActionAid descreveu o comunidado do G8 como “uma mistura de promessas recicladas e soluções falidas.”
E embora elas tenham acolhido positivamente o prazo de cinco anos para a distribuição dos US$ 60 bilhões para a saúde, “não há indicação alguma de quem vai pagar e exatamente quando.”
“As propostas de reforçar os serviços de saúde também são consideradas pela ActionAid como insuficientes, a não ser que seja feito um esforço maior no sentido de evitar o êxodo de pessoal qualificado dos países africanos”, disse um comunicado de imprensa.
Financiamento para quem precisa
“Não faz sentido treinar mais profissionais da saúde se a fuga de cérebros continuar”, disse um especialista em segurança de alimentos de ActionAid Malawi. “Há mais médicos malawianos na cidade de Manchester do que no Malawi inteiro.”
“Já é um bom progresso que eles forneçam o financiamento prometido”, disse Leonard Okello, chefe da equipa internacional para HIV/SIDA da ActionAid. “Entretanto, esperamos que eles cumpram estas promessas, porque um dos problemas maiores com os fundos destinados à saúde é que promete-se muito dinheiro e só parte dele é realmente pago.”
“O G8 e outros líderes de países desenvolvidos geralmente trabalham em função do calendário político, o que faz com que o financiamento seja feito em função da chegada e saída do governo, e não em função das necessidades das pessoas visadas pelo programa”, disse ele.
“Outro problema com o financiamento da resposta ao HIV é que raramente ele atinge as pessoas que realmente precisam dele, que estão no nível da comunidade”, disse Okello. “Pesquisas mostraram que na África mais de 70 por cento do trabalho de terreno relacionado ao HIV é feito por organizações baseadas nas comunidades, mas somente 11 por cento dos fundos chegam até elas.”
“Além disso, as organizações que recebem os fundos devem preencher normas rígidas – o que somente grandes organizações internacionais sem uma boa idéia do terreno em que estão a trabalhar podem preencher; o dinheiro acaba então sendo gasto onde não é preciso”, acrescentou ele.
Okello notou que somas importantes de dinheiro são gastas em hotéis de luxo durante reuniões de alto nível – dinheiro este que poderia ser melhor utilizado se fosse canalizado diretamente às comunidades.
“Não é de se estranhar que apesar de todo o financiamento, a resposta ainda esteja bem aquém da epidemia”, concluiu Okello.
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