ANGOLA: O estigma na tela do cinema
 Photo: Sérgio Afonso  | | Poeira, estradas esburacadas e histórias tristes no Kunene | ONDJIVA, 22 Fevereiro 2008 (PlusNews) - A bordo de um jipe 4x4, quatro pessoas enfrentam o calor, a poeira e uma estrada esburacada na província do Kunene, a quase 1.500 km ao sul da capital Luanda.
O cineasta namibiano Richard Pakleppa, a activista seropositiva Maria Henda, o productor Sérgio Afonso e o engenheiro de som Uliengue Almeida circulam de vila em vila à procura de pessoas vivendo com HIV que queiram contar sua história para uma câmera.
O Kunene tem a seroprevalência mais alta de Angola: 10,4 por cento, segundo dados oficiais.
As consequências estão à vista: a SIDA deixou órfãs muitas crianças nas aldeias, muitas pessoas faleceram e deixaram para trás kimbos (casas tradicionais) abandonados no meio da savana, onde imensos cupinzeiros, conhecidos como morros de salalé, crescem com estranhas formas.
O jipe chega à vila de Ombala-yo-mungo, a cerca de 110 km de Ondjiva, capital do Kunene. As histórias tristes não demoram a aparecer. Um homem de 40 anos, seropositivo, abandonado pela esposa, que o deixou com três filhos, está doente e a família não tem o que comer. Ao final da entrevista, ele pergunta se alguém não quer adoptar as crianças.
Uma menina de cinco anos, seropositiva, que perdeu os pais para a SIDA, não pode ir à escola porque os colegas não querem chegar perto dela.
Em outra aldeia do Kunene, Maria Henda, que é a entrevistadora no documentário, conversa com uma de quatro irmãs órfãs. Ninguém da família quis assumi-las e elas vivem sem o apoio da comunidade. A moça chora ao dar o depoimento. Maria Henda se lembra da sua própria experiência de rejeição e chora também.
Poeira, fadiga e expectativa
Em dois meses de gravação, Pakleppa e sua equipa rodaram mais de dois mil quilómetros nas províncias de Luanda, Benguela, Huíla e Kunene.
 Photo: Sérgio Afonso  |
| Aldeia no Kunene: aumentam os órfãos devido à SIDA | O documentário sobre pessoas vivendo com HIV e Sida, ainda sem nome, é financiado por um consórcio de organizações não-governamentais, entre elas a irlandesa Trócaire, a dinamarquesa Íbis, a Caritas espanhola, a norte-americana Catholic Relief Services, além do Fundo das Nações Unidas para Infância.
Pakleppa conta que foi difícil encontrar pessoas que quisessem se expor: “Ninguém quer dar a cara porque as consequências são devastadoras. Pessoas perderam família, casa, amigos, emprego, clientes – tudo por conta da discriminação.”
Outra surpresa de Pakleppa foi ver que, nas cidades, o discurso de muitos jovens reflecte intolerância e preconceito.
“Na teoria, ninguém discrimina, mas quando você vai mais fundo, descobre que não é bem assim. Mesmo pessoas com educação superior, que sabem que o vírus não se transmite pelo toque, admitem que hesitariam em abraçar um seropositivo”, destaca.
Segundo o oficial do Programa de HIV/Sida e Género da Trócaire, Jordão António, o documentário será uma ferramenta de trabalho para activistas e educadores na área de HIV e Sida.
Além das versões em português e inglês, o filme será dublado nas línguas nacionais umbundu, kimbundu, nhaneka-umbi e kwanhama. A trilha sonora será composta pelo famoso músico angolano Paulo Flores.
O custo estimado do documentário é de US$ 225 mil e a primeira versão deve ficar pronta em Março.
Para Maria Henda, as sete semanas de trabalho foram cansativas, mas valeram a pena.
“Fomos a aldeias distantes, vimos muitas situações de abandono, por isso, acho que será um filme de grande impacto”, antecipa.
A expectativa de Pakleppa com o novo filme é grande. “Espero que o filme emocione, incomode, faça as pessoas pensar, mas, acima de tudo, provoque muito debate”, diz.
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